a arrecadação

Este prédio de 6 andares onde em tempos vivi  tinha um sétimo piso exclusivamente constituído por arrumos, ou arrecadações. Eram grandes. A minha, a número 26, teria uns 40 metros quadrados, com um pé direito de aproximadamente 2,5 metros à entrada, que ia progressivamente diminuindo até atingir uns 30 centímetros, no fundo. Era rectangular, tinha uma clarabóia a meio, por onde passava a luz, mas que habitualmente estava tapada com um pano grosso, preto, opaco. O tecto estava forrado a cortiça, castanha escura, rude, porosa, que mantinha no espaço uma temperatura bastante agradável, principalmente no inverno. Mas que, acima de tudo, absorvia muito ruído, muitos decibéis, muito som. Algo a que o papel de parede também ajudava. E a alcatifa no chão. Daquela grossa e resistente, que picava. Lá dentro havia dois grandes móveis, antigos, imponentes, coloniais, em mogno, onde se guardava todo o tipo de tralha, de roupas a jogos, livros escolares a revistas. Um destes móveis foi meticulosamente aproveitado e rentabilizado. Desencostado da parede, foi rodado e colocado a meio do espaço, dividindo o rectângulo e criando-se assim um quadrado, onde havia altura suficiente. Ficou assim circunscrito o espaço dançável. A toda a volta deste quadrado havia fotografias nas paredes que não eram mais do que páginas arrancadas da photo e da  playboy, grafittis toscos,  diversos focos direccionais com psicadélicas de cor e uma luz negra. E havia também uns colchões de campismo no chão para quem quisesse estar sentado. Para lá do armário havia todo um mundo de tralha mal-amanhada que se ia acumulando, luzes, cabos, interruptores, distribuidores, bolas,  espelhos, tinta, casquilhos e tudo o que não era mas poderia vir a ser útil.

Mas era neste armário aproveitado que estava o meu mundo. Nele havia colocado uma aparelhagem pioneer com gira-discos e duplo deck, um leitor gravador sharp também de duplo deck, ambos unidos por uma mesa de mistura simples de 4 pistas. Ainda hoje tenho isto. E havia uma tábua em contraplacado com um número interminável de interruptores, mais do que as luzes que havia para ligar ou desligar. E finalmente, uma máquina de slides, que à data era já antiga, através da qual projectava imagens, algumas das quais fotografias, outras desenhadas por mim em celofane. Mas que não podia estar ligada muito tempo, fosse porque dava demasiada luz a um espaço tão pequeno, que a malta queria soturno, fosse porque havia sempre o perigo de sobreaquecimento e incêndio.  Este era o local onde me refugiava, onde descobria e ouvia música, onde a dava a conhecer a quem aparecesse. E estava lá sempre  alguém, mesmo quando eu não estava. As chaves circulavam por aí. A porta estava sempre semi-aberta, melhor dizendo, fechada mas não trancada. Tinha que estar fechada, obviamente, pelo barulho que lá se fazia. Eram tardes um tanto loucas, faziam- se uns quantos disparates, e havia estupidez a rodos. Era a idade dela. Um dos desafios foi mesmo tentar fazer com que a música se ouvisse na garagem do edifício, 8 pisos abaixo. Conseguimos. Creio que nos valeu na altura o facto de os sexto, quinto e quarto pisos dos prédio terem poucos apartamentos pemanentemente habitados. De contrário, não teria  sido possível desperdiçar tanto decibel pelas escadas e elevadores. Isto eram as tardes, onde se reuniam amigos, amigos de amigos e outros, os conhecidos dos amigos dos amigos. Eventualmente também por la apareciam desconhecidos. Lembro-me de ter escorraçado um grupo de 4 fulanos de aspecto duvidoso que tinha ouvido falar naquilo e tinha decidio aparecer para ver que tal. E de numa outra tarde ter perguntado a uns amigos quem eram “aqueles lá fora” tendo recebido ombros encolhidos como resposta. Lembro- me de não conseguir passar pelas escadas e pelo corredor que lhe davam acesso, tanta era a gente que lá estava à espera, e que depois ia embora porque não cabia lá dentro. Lembro-me de achar tudo aquilo um exagero, uma fama excessiva. Apesar da minha idade juvenil me dizer que tudo aquilo era a glória, ou quase. E lembro-me de muitas outras coisas que não vou contar, por vergonha ou por censura. Mas lembro-me, fundamentalmente, de lá ter conhecido muita gente que possivelmente de outra forma, noutros locais, não teria conhecido. Era um ponto de encontro alternativo, numa cidade onde de tarde apenas se podia visitar o griffons, o swing, o nabuco ou o lá lá lá. Na arrecadação a entrada era livre e era certo encontrar amigos.

As noites, por oposição, eram bastante mais tranquilas. Ouvia-se música mais calma e falava- se. Falava-se muito, até às tantas. Era, finalmente, um espaço de reunião e de união entre  putos que tinham o tempo para ocupar.

Passaram mais de 20 anos. Aqui estamos.

Há uns tempos decidi experimentar esta coisa dos blogues. E gostei. Gosto de escrever. É de certa forma libertador.  E preenche uma necessidade altruista que levo permanentemente insatisfeita, de partilha. Mas o tempo já não é o que era, a vida também não. As premências são outras.  E também os gostos se alteram. Bem como as expectativas. Decidi fazer algo de novo, em jeito de arquivo, mais estruturado, mais cuidado, mais curado e mais intimista, por contrasensual que seja este conceito aplicado a um blogue. E tinha que lhe chamar assim. Arrecadação.

Esta nova arrecadação já não é um local de música nos poros. Agora há ver, ouvir, ler, comer, beber e procrastinar, há reflexões, há contos, há desejos e há também piadinhas, aqui e ali, piadinhas. Mas já não há grande discussão ou debate. Infelizmente. Na vida que agora vivemos já não há tantas incertezas, tantas ansiedades, tantas expectativas, já não há existencialismo juvenil. Esta é uma arrecadação que nasceu na era da estupidificação das massas, na era do individualismo, do egoísmo, do conhecimento extemporâneo à velocidade de um clique, da dicussão filosófica em 140 caracteres. Nasce na era em que quem não é virtual está semi-vivo ou semi-morto.  Nasce na era da espuma de todas as coisas. É uma arrecadação que enfermará certamente de alguns destes males.  Excepto um. Aqui haverá sempre partilha. Por isso, nesta arrecadação entra quem quiser. Quem a ela quiser acrescentar. A porta não está trancada mas continua fechada, apenas e só por causa do ruído, desta vez do ruído que vem de fora.

fb/2011/setembro/10

11 Comments Add yours

  1. SRV diz:

    meu caro, ainda não tinha lido este texto.
    gostei muito.
    já não encontro mts do que iam ao griffons (suor a cair do tecto); swing (antes fase minorias) e o lalala!
    ab
    SRV

    1. fb diz:

      Obrigado Sérgio.

  2. blocodecotas diz:

    Muito bom especialmente pelas saudades da cidade cinzenta que deixei há uns bons tempos mas também pelos espaços que fizeram parte da nossa juventude. Bons tempos!

    1. fb diz:

      felizmente esta cidade já não é nada cinzenta…🙂 mas sim, era bastante.

  3. Man a tua arrecadação é fenomenal… Eu tb ia ao Griffon’s (sempre apinhado!) Era amigo do porteiro, o Quim, cheguei a ver lá o Reininho com 1 colar de alhos na festa dos vampiros (mania que era VIP…) e estive a falar sobre sequenciadores de música (lembram-se do Atari ST?) com o pedrado do Alexandre Soares O Swing tb já foi sim e o lalala foi sempre uma surpresa (ou a abarrotar ou quase vazio) com muitos seres estranhos… Eram os 1987-92 Uma golden age para vira-latas como eu, sempre atento e sempre distraído, azul no cinzento e quem tem a mania da luz de Lisboa é prq ñ viu o Porto como um estranho numa terra estranha o vê… Agora 25 anos depois o mundo está mto mais cruel e a nova música deixou de me emocionar, eu que aos 12 anos já comprava LP’s dos Kraftwerk e que agora tenho no PC toda a música que ouvi na vida e finalmente consegui arranjar os 80 episódios do Star Trek original que dava a preto e branco na tv da minha cozinha de nascença Sim sou 1 geek, mas continuo excêntrico e com o mesmo sorriso, agora por trás da minha barba branca😉 Obrigado por este site! Vou partilhar em todo o lado! Abraço man!

    1. fb diz:

      Muito obrigado!

  4. Esqueci-me do meu FB… aqui vai: https://www.facebook.com/NuiParishi Mas a foto já é do ano passado! Este ano deixei crescer a barba… O mail é nuiparishi@gmail.com Fiquem á vontade para contactar, partilhar textos, música, links, etc… Já agora se tiverem algum problema com o vosso PC, laptop ou notebook Windows, XP/Vista/7, eu resolvo tudo (é o meu trabalho!) de borla ou algum pedido de software, filmes, música, e-books, e-comics, seja lá o que for, eu arranjo tudo na boa! Comuniquem que eu respondo a todos! Abraços e façam favor de ser felizes…

  5. Sara Augusto diz:

    Fb, cá vim. Já está no Reader para saber de si mais vezes. Não deixe de falar comigo e me dar sugestões. Abraço,

    1. fb diz:

      Obrigado. Assim farei, o tempo mo permita.

  6. É engraçado, no meu caso a “arrecadação” era muito mais pequena, um quarto recheado de quadros, telas, tintas, vinis sempre a riscar, papel, carvão, fotografia, livros, poesia, luzes, vinho e tabaco. Reunia-me frequentemente com amigos vizinhos que já não moram em Portugal, e debatíamos… éramos muito existencialistas, falávamos sobre o que gostávamos de ver acontecer, misturando o fatalismo com ansiedade e expectativa… fizemos perguntas, fomos inconformistas, chegámos a trabalhar juntos, somos amigos e conhecemos muita gente pelo meio, também. Gostava de ter conhecido a Arrecadação e de ter lá ido com esses amigos. Tenho estado atento ao blog, é dos que acompanho e um dos meus favoritos! Um bom ano!

    1. fb diz:

      Obrigado Gonçalo. Creio que pertencemos a uma geração de arrecadações, nas quais houve muita discussão e debate, mais ou menos filosófico. Tenho alguma saudade, não do teor das discussões que certamente seriam próprias da idade, mas sim do acto e do ritual de ver aparecer e de reunir, em casa, amigos. Sem horas… Como digo no meu texto, nesta arrecadação entra quem quiser. Quem a ela quiser acrescentar. A porta não está trancada mas continua fechada. Trata-se apenas de a abrir e de entrar. Um abraço

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