menina de rosa

Eles dobraram a esquina , aparecidos não vi bem de onde. Tampouco percebi há quanto tempo viriam na rua. Era já tarde, noite avançada, chuviscava e eu acabara de parar num semáforo a caminho de casa. À minha frente, do outro lado do cruzamento, pela esquerda, eles dobraram a esquina e continuaram a subir, pelo passeio agora largo de latino coelho. Ele sucumbia a um qualquer cansaço, passo sim passo não parava, fazia uma pausa, se houvesse uma parede mais perto apoiava-se. Ela gesticulava qualquer coisa, argumentava para o lado. Nada de muito grave. Parecia até engraçado num primeiro momento. Havia um espaço que os separava. Nesse espaço havia uma menina. Dava-lhes as mãos, a ambos, uma a cada um. Corpo vestido de rosa, casaco de penas, leggings e botas castanhas. Estava bem vestida, não no sentido estético mas no sentido prático do tempo. Cabelo oxigenado encaracolado apanhado por uma bandolete.  Uma menina típica da baixa. Baixinha, não teria mais de sete anos. Era ela afinal que os mantinha presos, unidos, num equilíbrio ora tenso ora frouxo, dependendo do lado para que cada um pendia em determinando momento. Havia ali uma estranha harmonia. Uma família feliz, algo cansada pelo avançar da noite, talvez acabada de sair da casa de algum casal de amigos, também eles já a caminho do leito. Gozaria a Mãe com o Pai ? – “Estás velhito, mexe lá essas pernas”. O Pai não respondia, apenas gesticulava qualquer coisa com a mão esquerda, ora desenhando algo no ar ora procurando uma parede para se apoiar. A miúda parecia dizer-lhe “anda lá papá, deixa-te de brincadeiras”.  E parecia manobrar dois fantoches, dois caretos, dada a desproporção de tamanhos. Interessou-me aquele cenário harmonioso e continuei a observar. Pararam outra vez. Os passos eram pesados e arrastavam-se. Enquanto ali estive parado, numa semáforo vermelho, era a terceira paragem que faziam.  A miúda, do baixo do seu pouco mais de metro de altura começou a puxar, a esticar insistentemente a mão esquerda, a que a unia ao Pai. Olhava fixamente para a esquerda e o Pai agora encostado a um prédio, olhava para o cimo, para uma nesga de céu à sua direita, tentando talvez apanhar algumas gotas de chuva.  Estranhei a passividade da Mãe que comecei a perceber apenas à medida que me ia aproximando.  Lutava afinal para manter-se em pé. Os esticões da menina aumentavam de intensidade, á direita e à esquerda. A menina olhava, puxava de um lado, puxava do outro. Mantinha a tensão. Mantinha a verticalidade daqueles dois imbecis inebriados. Actuava como um tensor, tal qual os utilizados nos postes eléctricos, que mantém os cabos separados para que não se toquem ou cruzem. Para que não caiam ou rebentem. Enfim, para manter a fluidez das correntes e para evitar contactos físicos que de bom não trazem nada. E para os manter erectos pois de outra forma não se moveriam. O gajo dava passo e meio e encostava-se, a gaja repetia-lhe a cadência e parava também. Balbuciava qualquer coisa para a esquerda. A menina olhava, para cima e para os lados. Era puxada e puxava, esticava, puxava uma vez mais. Mantinha a verticalidade, já o disse,  a gente que não sabe o que isso é.

fb/2013/01

One Comment Add yours

  1. OutofWorld diz:

    pois não.

    gostei tanto.

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