a farsa

“Not using one´s best efforts to win a match and conducting themselves in a manner that is clearly abusive or detrimental to the sport”. Estes são os dois argumentos retirados do código de conduta da Badminton World Federation utilizados para desqualificar dos jogos olímpicos, na passada quarta-feira, 4 pares femininos, um Chinês, um Indonésio e dois Sul-Coreanos.
A história é já sobejamente conhecida e resume-se ao acto de 4 pares já qualificados para a ronda seguinte terem alegadamente feito tudo ao seu alcance para perder os últimos jogos de forma a obterem confrontos mais favoráveis nas eliminatórias que se seguiam.
Em tudo o que li, jornalistas, deportistas, ocidentais e orientais, comentadores e opinadores profissionais em geral, há muito moralismo, muito apelo à ética e aos valores, muitos estigmas (e em relação aos Chineses estamos carregadinhos deles) e acima de tudo muita incoerência, muita !
Lembro-me de alguns comentários curiosos que entretanto li a propósito de tudo isto e que não posso deixar de transcrever:
– this type of play has been a problem in other international competition during qualyfying rounds – Niels Nygaard, presidente do C.O.Dinamarquês;
– you cannot accept that players manipulate the game – Martin Kranitz, Líder da equipa de badminton Alemã;
– the play was unacceptable – Sebastian Coe, Director dos jogos de Londres;
– we will not provide refunds – Paul Deighton, Director de operações dos jogos de Londres;
– this is the olympic games, this is something that is not acceptable, the crowd paid good money to watch two matches – Gail Emms, jogador britânico medalhado em 2004;
– the worst thing an olympic athlete can do is try to lose and that’s why everyone involved in the badminton match-throwing scandal should be banned from the games for life – jake simpson, the atlantic.
Mas então vejamos,
1. dá-se o facto de esta ser uma prática recorrente no badminton, principalmente por parte dos atletas e equipas chinesas, o que tampouco é de espantar quando a China domina por completo este desporto, quantitativa e qualitativamente. É portanto natural que torneios em que mais de metade dos competidores são chineses, exista uma gestão de esforços e uma estratégia integrada com vista à obtenção ou à perpetuação deste domínio. Serve isto para alegar que não foi por ingenuidade e por falta de aviso que o comité olímpico decidiu “inovar” com este formato nos jogos, que como já se sabia de antemão, não resultaria em posturas diferentes por parte dos atletas. Mas apesar dos recorrentes avisos, no sentido de aumentar a espectacularidade do evento e no verdadeiro espírito olímpico (aumentar o encaixe financeiro) o COI e a BWF teimosamente avançaram.
2. alegar que a conduta dos atletas é abusiva e prejudicial ao desporto é algo, hmmm, digamos, subjectivo. Da apreciação efectuada dos jogos resulta que as jogadoras queriam um sorteio mais favorável. E assim estariam a manipular os resultados. Querer um sorteio mais favorável para aumentar as possibilidades de vitória final é manipulação de resultados ? Aparentemente sim. Vamos ter que redefinir os nossos conceitos sobre manipulação.
No entanto, no final do jogo, declara uma das jogadoras chinesas aos jornalistas “se já estamos qualificadas porquê gastar tanta energia ? Não é necessário colocar toda a nossa força em campo quando as eliminatórias são já amanhã…” São apenas conhecidas as declarações das atletas chinesas. Sobre as Coreanas e as Indonésias apenas se conhece um lacónico “foram as chinesas que começaram…” E como as Chinesas começaram, de certeza que o que queriam era … lá está, manipular resultados. Aqui todos concluem pelo mesmo. Pelo que, não há na reacção das Coreanas e das Indonésias ou na interpretação do COI e da BWF nenhum tipo de estigma em relação à postura das Chinesas. Absolutamente nenhum.
3. as atletas violaram objectivamente alguma regra ou norma desportiva ? Pois.
Pelo que se pergunta à organização se quer realmente jogos fortes, equilibrados e espectaculares nas fases finais ou está mais interessada em “fazer render o peixe”, qual circo, fazendo passear pelo recinto os atletas de topo em fases intercalares que nada acrescentam à competição mas sim e apenas aos cofres do comité ? É que, parece que alguém se esqueceu pelo caminho que este desporto é altamente desgastante. Ah, e que no final, todos querem ganhar, embora isso possa significar perder algures durante o percurso. Parece importante recordar este ponto.
Não há aqui nada de novo, pelo menos para mime creio que também para a generalidade das pessoas. Desde que sou gente e que pratico e observo desporto, que este tipo de tacticismos e estratégias lhe são inerentes bem como à sua organização.
Estas atletas foram vítimas de um sistema que não estipularam e que tentaram legitimamente utilizar em seu favor, tal como todos os outros atletas fazem, em todos os deportos em que esta gestão de esforços ou de calendário seja exequível ou necessária. Ora as as virgens ofendidas e o público em geral aparentemente pouco se importam com os demais exemplos. Mas são recorrentes e evidentes os simulacros que ocorrem nas nossas barbas. Deixemos de fora os desportos que acompanhamos diária ou semanalmente e cinjamo-nos apenas aos jogos olimpicos. São vários os exemplos:
– nas eliminatórias das estafetas de natação as equipas da Austrália e dos EUA alinharam com equipas B. Este acto foi apontado como natural. Esta postura belisca o espírito olímpico ? Aparentemente não;
– em todas as eliminatórias em que participou, Mr. Bolt passeou-se, desacelerando nos últimos metros, de forma quase vexatória para os seus concorrentes. Esta “falta de empenho” belisca o espírito olímpico ? Aparentemente não;
– idem para Phelps (que se fosse Chinês deveria ter sido expulso por se ter quedado por um vergonhoso 4º lugar nos 400m estilos…);
– no jogo de futebol feminino entre o Japão e a África do Sul, de acordo com as declarações efectuadas pela própria treinadora Japonesa, a equipa foi instruída para reter a bola e não rematar à baliza de forma a não ganhar o jogo. Ao empatarem este jogo evitaram defrontar na ronda seguinte as poderosas selecções da França e dos EUA. Esta “manipulação de resultados” belisca o espírito olímpico ? Aparentemente não;
– no jogo de Basquetebol entre a Espanha e o Brasil a Espanha ganhou todos os períodos ( 26-17, 44-38, 66-57) com excepção do quarto, cujo parcial foi 31-16, algo convenhamos, anormalmente baixo, e que resultou num resultado final de 82-88 com vitória do Brasil. Perdendo o jogo a Espanha evita o confronto com os poderosos EUA na ronda seguinte aumentando as possibilidades de passar à final. Os Brasileiros já não podem dizer o mesmo… Esta “manipulação de resultados” belisca o espírito olímpico ? Aparentemente não;
– no voleibol, a equipa Sérvia feminina, arrastou-se em campo contra o Brasil, simplesmente porque…já estava afastada da competição. Esta falta de empenho belisca o espírito olímpico ? Aparentemente não;
– no atletismo, o corredor argelino Taoufik Makhloufi foi desqualificado dos jogos depois de ter desistido poucos metros após ter iniciado a corrida dos 800 metros. A justificação “técnica” do juíz: O atleta não estaria a desenvolver os melhores esforços para ganhar a prova… A Federação Argelina protestou alegando problemas físicos do atleta, comprovados por relatório médico. O atleta foi readmitido na competição e no dia seguinte venceu o ouro nos 1500 metros. Uma lesão e um relatório médico que não beliscam o espírito olímpico;
– na canoagem, numa prova que muitos vimos porque havia portugueses envolvidos, a equipa campeã olímpica, britânica (detalhe importante), teve um percalço técnico com o assento(?) sendo a prova interrompida alguns metros depois de iniciada. Para aumentar o espanto e a incredulidade de todos, que já era grande com a simples interrupção da prova, a mesma prova foi reiniciada com todas as equipas presentes. Esta postura da organização belisca o espírito olímpico ? Aparentemente não;
– no ciclismo, numa prova de perseguição, entre a GB e a França, foi concedida à equipa Inglesa a possibilidade de reiniciar a corrida depois de o selim de um dos ciclistas ter saído (aparentemente os ingleses andam com problemas em apoir o rabo). Esta postura da organização belisca o espírito olímpico ? Claro que não;
– no ciclismo, o corredor Inglês Hindes despistou-se de propósito à saída da primeira curva porque estava instruído nesse sentido. De acordo com as suas próprias declarações no final da corrida essa era a estratégia da equipa. “Se tivéssemos uma má partida teriamos que nos despistar para reiniciar a corrida”. ” Despistei-me simplesmente. Fi-lo de propósito para obter o reinício da corrida e para conseguir uma volta mais rápida. Fi-lo. Portanto foi tudo realmente planeado. “ Em declarações posteriores Hindes corrigiu o discurso afirmando que perdeu o controle da bicicleta. A Grã-Bretanha ganhou o ouro e nem o COI nem a International Cycling Union vêem motivos para questionar o resultado. Eu também não, afinal essas são as regras e nenhuma foi violada. Trata- se de uma vitória justa e dentro do espírito Olímpico, melhor dizendo do actual.
O que diferencia então os exemplos acima mencionados do badminton ? Primeiramente a cobertura mediática. O virtuosismo ocidental parece ser bastante selectivo. Mas há uma explicação. Utilizando as palavras de Sebastian Coe, no badminton the play was unacceptable “ Ou seja, o espectáculo, a actuação, mais do que a performance desportiva em si, foi inaceitável. O grande erro destas atletas esteve na teatralizaçao ou na falta dela pois, como disseram alguns altos responsáveis do COI e comentadores, à data, “neste caso os espectadores foram privados do espectáculo” (e não interessa se os demais shows são podres na essência).
Tivessem as atletas olhado para as redes e raquetes depois de falharem os pontos, tivessem berrado, conspurcado e injuriado, tivessem discutido umas com as outras, tivessem discutido com o árbitro pontos fora, tivessem simulado doroes insuportáveis ainda que de acne, calos ou unhas encravadas, tivessem simulado entorses em pulsos, tornozelos ou pestanas, tivessem mergulhado no chão e rebentado as embalagens de ketchup que traziam nos sutiãs, tivessem chorado sem parar por causa da cebola espalhada nos peitos, tivessem feito tudo isto, e o show continuaria pois o magnificiente público aplaudiria e as virgens ofendidas dar-se-iam por contentes. É desporto, diriam, umas vezes bem jogado, outras nem por isso. Mas é desporto.
Não temos obviamente que compactuar com isto, mas não podemos deixar de assumir que este bicho foi criado por nós e os jogos são e sempre foram um reflexo da moralidade e da sociedade da época. As incoerências, os estigmas, os moralismos torpes e os interesses subjacentes a todas as práticas relatadas, desportivas ou não, e em todas as citações referidas não nos são indiferentes e encontram eco nas nossas vidas diárias. Quem negar isso nega a realidade.
Acredito que quem vê o vídeo dos jogos de badminton (que o COI se apressou a proteger com direitos de transmissão e retransmissão para que desaparecessem da face da terra) terá a mesma sensação de repulsa que eu tive perante actuação tão deprimente. Mas trata-se acima de tudo de uma actuação ingénua. Objectivamente ingénua. No entanto, ninguém deve ser desqualificado dos jogos e ver o sonhos e esforços de de uma vida ingloriamente destruído por ser ingénuo ou por inadaptação ao sistema das performances teatralizadas.
É caso para dizer agora a estas senhoras, a farsa, aprendam-na com os ocidentais, nisso eles são bem melhores.
P.S. – Apesar de serem vários os exemplos de conduta anti-ética e anti-desportiva, o prémio do execrável continua a ir para a equipa de basquetebol de Espanha e todos os seus responsáveis que em 2000 ganhou a medalha de ouro nos jogos paralímpicos, vindo-se a descobrir mais tarde que dos 12 jogadores, 10 tinham fingido deficiências mentais para entrar nos jogos. Esta corja sim, deveria ser banida do desporto (e porque não da sociedade), para toda a vida.

<a

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