casa pia, uma analogia

Há acontecimentos numa vida que são singulares e por isso marcantes.  Eu tenho, como todos vós, os meus. Lembro-me particularmente bem de um. Teria uns 4 ou 5 anos e estava sentado numa sala, a segunda sala à direita no corredor à esquerda, uma sala virada para o recreio, de chão azul turquesa, manchado de negro. Estava sentado, dizia, em cima de um círculo preto delineado a fita adesiva. O que de facto aconteceu, embora possa ser relatado, não interessa verdadeiramente para a história ou para a sua amoral. Lembro-me bem da cara de alguns colegas que ainda hoje posso nomear e da minha professora de então, a Luísa, que foi quem me deu a devida assistência. Assistência essa dada na casa-de-banho das meninas, última porta à esquerda do corredor da direita, a que tinha ao fundo uma grande janela quadrada de vidro com tela de arame. Estava sempre fria porque a janela estava sempre aberta. Não era hora de recreio, de certeza, já que lá fora não se ouvia ninguém a brincar. Lembro-me bem da cara dela,  o lenço no pescoço, o penteado armado de cabelo curto e as unhas compridas pintadas de vermelho com sapatos a condizer. A Luísa gostava muito de vermelho. Lembro-me também que entrei no colégio com umas calças azuis de sarja e saí com umas calças castanhas de bombazine. Não sei de quem eram estas últimas. Estavam surradas e ficavam-me largas. E lembro-me finalmente do primeiro comentário da minha tia quando me foi buscar. Apesar de terem passado mais de 30 anos não me esqueço de todos estes pequenos detalhes. Curiosamente, não me lembro do dia e da hora em que aconteceu. Talvez por não serem relevantes para o caso, ou por durante grande parta da minha vida ter tentado esquecer esse dia em particular !

Há dias encontrei a Luísa na rua e falamos um pouco. Entre outras coisas eu recordei-a deste acontecimento, do dia em que sem perceber porquê me borrei pelas calças abaixo. Ela disse-me, categoricamente, que no dia em isso aconteceu ela não estava lá. Um dia significante para mim e que  só poderia ser irrelevante para ela. Assim pois, que mais de 30 anos depois ela se lembre do exacto dia em que não estava lá é para mim um verdadeiro mistério.

fb/2010/novembro/15

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