O elogio do imbecil

Uma pessoa descontente, agressiva, que se tornou má pode deixar-se mover graças a um pouco de atenção, de tolerância, de simpatia; mas experimente-se moderar o imbecil, arrancá-lo às suas convicções firmes ou, melhor dizendo, inflexíveis, insinuar no seu espírito uma dúvida, por mínima que seja: só aparentemente se deixará embaraçar, dar-se-á o tempo todo para recomeçar a urdir, por assim dizer, o seu raciocínio na ideia obstinada de que somos nós a não compreender, pertinazes como nos mostramos reiterando a tentativa de descarregar sobre ele a nossa própria imbecilidade… Reflicto: talvez o simplório precise de ser auxiliado ou até acarinhado, talvez devamos prmitir-lhe que ponha tudo de pernas para o ar, se isso servir para o sossegar um pouco. Creio que não o devemos contrariar, em suma, se quisermos evitar consequências ainda mais inquietantes; embora, entretanto, já se sabe, traga filhos ao mundo, os faça crescer, lhes explique a vida, decida de que coisas e de que modo entende falar, talvez da liberdade, do amor, da morte, mas também da melancolia ou da alegria, do medo ou do sonho. Ou fixe as normas de pensar e de julgar: de Bossi a Deus, do infinito à hora do jantar, da corrida espacial ao jogo da bola; ou vá votar, instruindo sobre o sentido de voto a mulher, os parentes e os amigos, enquanto espera poder fazer a mesma coisa com os filhos.

Estatisticamente, o imbecil representa a maioria, mas não é assim: interpreta a humanidade. A qual, como acabamos de aprender com alguns cientistas americanos, não nasce inteligente. Ou melhor, o nivel de inteligencia de uma pessoa só numa terça parte seria hereditário, sendo tudo o mais adquirido através do confronto com a vida. Porque crescemos, no fundo, graças aos problemas que somos forçados a resolver. E em primeiro lugar o da inteligência ou se se preferir o da imbecilidade. Não é uma má notícia se pensarmos bem: a ideia de que Miguel Ângelo possa ter sido, na sua tenra idade, a cabeça de Esposito Gennaro ou de Brambilla Ambrogio, produz grandes consolações e alimenta enormes esperanças. Mas incita sobretudo à devida prudência: o primeiro imbecil que encontremos poderá vir, na realidade, um dia a pintar o Juízo Final ou a esculpir a Pietá…

Sergio Zavioli
Apresentação de “O elogio do imbecil” de Pino Aprile

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