barrado

Creio que tão cedo não esquecerei a cena, absolutamente irreal, que me fez sair disparado. Corrigindo, esquecerei por certo, não sei ainda quando.

Não estava a correr bem o dia, ainda não ia a meio e já lento e desesperante com atrasos significativos, ou, o que mais me irrita, de uma improdutividade absoluta. Foi por isso que ali fui, para recuperar de tudo isso.

Não tinha dado um passo dentro e já ele me tinha bloqueado. Mero acaso. Esperei. Mas ele não se mexeu. Estava de lado, poderia não se ter apercebido da minha presença. Poderia. Mas não creio. Toquei-lhe no braço.

Há gente que gosta de viver devagar, religiosamente devagar. Ou pura e simplesmente não consegue viver a um ritmo aceitável, físico e intelectual.

Esperei. Ele lá estava. Continuava.

Ao fim de longos segundos, porque não se movia, agarrei-lhe no braço e assim o mantive, agarrado. Dá-me licença, disse-lhe. Tinha uma última mesa disponível precisamente atrás dele, pronta a ocupar, por mim ou por um outro, que rápida e perigosamente se abeirava. Ele, apercebendo-se da minha pressa e já irritação fez questão de recuar para me deixar passar, bloqueando assim, definitivamente, o que era um estreito acesso directo à mesa.

Passar para onde? Por onde ? Só tenho mesas ocupadas e parede à minha frente. Não há caminho. Gesticulei. Não sei porquê, intuí que não adiantaria falar.

Insisti, desta vez já não apenas com um toque no braço ou com um agarrar. Foi uma tentativa mais incisiva de tentar arrastar um obstáculo para obter passagem. Um quase empurrão. Ele repeliu a minha mão com um movimento de braço e tornou a querer ceder-me passagem. Veniou-me. Eu não passei. Pela terceira vez. E pela quarta.

O cúmulo do absurdo. Ele tinha resolvido insistir em ser simpático.

Incrédulo e incapaz de outra reacção que não uma valente gargalhada e de um sonoro “inacreditável” viro as costas e saio. Vencido. Por um burgesso, pelas forças ocultas de um qualquer poder cósmico ou pelas barreiras linguísticas e culturais que uma deslumbrada globalização não quebrou como já ao longe ouvi uma outra empregada justificar.

Nada mais errado. Fui vencido pelo poder. Físico. Pela sensação de subjugação que confere.

Diga-se o que se disser, não houve enganos ou mal-entendidos. Ele teve prazer em tudo. Com tudo o que se passou. Eu sei. Aquele olhar. Retenho-o. Não me esqueço, por ora. Da forma como me manietou. Esse seu momento glorioso. E como me senti despojado e impotente.

Terá que ser com argúcia porque ele é de facto, possante.

Além do mais, o vislumbre do olhar aterrador da surpresa supera em prazer qualquer desventura mundana. Não é portanto coisa despicienda e há que saboreá-lo. Argúcia portanto.

fb/2010/07/17

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