a lei de parkinson (adaptada e explicada às crianças)

Políticos e contribuintes acreditam piamente (embora com dúvidas ocasionais) que um crescente número de empregados públicos reflecte um aumento do trabalho a ser executado. Outros, poucos, mais cépticos, acreditam que a multiplicação de funcionários deve ter deixado alguns deles desocupados ou todos eles com bastante tempo livre, incapazes de preencher com trabalho a totalidade do tempo que lhes está destinado. Mas o facto é que o número de funcionários públicos e a quantidade de trabalho não estão relacionados entre si. O aumento do número de empregados é regulado pela lei de Parkinson e esse aumento seria sempre o mesmo quer o volume de trabalho aumentasse, diminuísse ou até se desaparecesse. A importância da lei de Parkinson reside no facto de ser uma lei de crescimento baseada numa análise dos factores pelos quais esse crescimento é controlado. Esta lei baseia-se fundamentalmente em evidências estatísticas. Mas creio que o público esteja mais interessado na explicação dos factores que alicerçam a tendência geral definida por esta lei pelo que, abandonando detalhes técnicos (que são muitos), podemos distinguir, ab initium, duas “driving-forces” que podem ser traduzidas em verdades quase axiomáticas:

1- um chefe está sempre disposto a aumentar o número de subordinados, desde que estes não sejam seus rivais;

2- os chefes inventam trabalho uns para os outros.

Para compreendermos o que aqui se diz imaginemos um funcionário público, a que chamaremos A e que actualmente se encontra com excesso de trabalho. Que o excesso seja real ou imaginário não vem, agora, ao caso. Para solucionar este problema existem 3 soluções (poder-se-iam introduzir outras opções como a substituição directa de A por um fulano B, com melhor capacidade e performance mas não percamos de vista que estamos a analisar o funcionamento de instituições públicas, vulgo Estado, onde tais opções não são, digamos, viáveis…):

1) A afasta-se e deixa-se substituir por um outro funcionário;

2) A passa a dividir o trabalho com um colega a quem chamaremos B;

3) A poderá solicitar dois ajudantes, que designaremos C e D.

Não haverá a mínima dúvida de que a escolha de A será a 3), admitir dois ajudantes. E porquê ? Porque a opção 1) não é viável no funcionalismo público (bendita constituição) mas além do mais, se fosse possível, se A se afastar perderá relevância hierárquica, funcional e possivelmente deixará de progredir na carreira, etc; Se consentir dividir o trabalho com B ver-se-á confrontado com um colega do mesmo nível hierárquico, um rival portanto, que poderá ser promovido em vez dele quando o chefe máximo se reformar. A terá então C e D, dois jovens iniciados, a trabalhar para ele. Note-se que C e D são inseparáveis. Admitir apenas C ou D levaria a uma repartição igual de trabalho, seja em volume seja em responsabilidade, criando no fundo um rival, solução que indirectamente conduziria a 2), solução essa já rejeitada. Além disso, ao admitir C e D, A divide também o trabalho a repartir em duas categorias, passando ele a ser o único homem capaz de compreender os dois. Quando finalmente C se queixar de excesso de trabalho (e isso acontecerá com toda a certeza), A recomendará a C que admita dois assistentes para auxiliá-lo. Mas para evitar aborrecimentos e constrangimentos, A acabará por recomendar a D que admita também dois assistentes. Pelo que, passaremos a ter E, F, G e H. E com tudo isto, A tem já 6 pessoas a seu cargo e a sua promoção é praticamente certa. Ou melhor, está promovido por inerência.

Temos agora 7 (!) pessoas a fazer o trabalho que antes era feito por uma apenas. Nesta altura, o ponto 2 da lei começa também a fazer-se notar. Com efeito, cada um destes homens cria um pouco de trabalho para os demais, a ponto de todos estarem completamente ocupados e A, esse então trabalha mais do que nunca. Não ? Então vejamos. E acaba de receber um documento. Apesar de qualquer documento poder ser eventualmente examinado por qualquer uma destas pessoas, E decide que o assunto é da competência de F, que rascunha uma resposta para C, que altera o documento antes de consultar D, que por sua vez pede a G para resolver o problema. Mas a dada altura G está impedido de o fazer (de férias por exemplo) e o assunto é encaminhado para H, que prepara um relatório que D assina e devolve a C, que o revê e submete a A para decisão final.

A poderia assinar de cruz, mas não. Até porque, sabendo que deverá ser promovido no próximo ano, A tem também que decidir quem será o seu sucessor: C ou D. E há que ter em conta as susceptibilidades.

Aqui faz-e uma reflexão paralela. Note-se que apenas C e D são candidatos à sucessão de A. A razão principal reside no facto de ao promover apenas C ou D, A evitar uma imensa carga de trabalhos justificativos e retaliações futuras de toda a estrutura caso, por meritocracia (oh loucura !), decidisse promover E, F, G ou H. Pelo que, nestas estruturas, a antiguidade é um posto. E fecha-se por ora esta questão.

Continuando. G está de férias, excepcionalmente porque ainda não lhes tinha direito. H tem tido alguns problemas, não só de saúde, pelo que A anda preocupado se não deveria ter dado as férias de G a H. F tem feito algumas horas extra sem que tenha ainda recebido a devida compensação financeira. E finalmente temos E, que acaba de pedir transferência para outro departamento. D apaixonou-se entretanto por uma funcionária casada e G e F estão de relações cortadas, não se sabe bem porquê.

Atendendo a tudo isto, dizia, A vê-se tentado a assinar o documento que lhe foi submetido por C e terminar o assunto. Mas A é um homem de consciência e ressente-se pela existência de tantos problemas à sua volta. Problemas estes que só existem pelo simples facto de existirem os funcionários. E para além do mais, A não gosta de fugir às suas responsabilidades. Assim sendo, lê e estuda cuidadosamente o memorando, ignora as inclusões de C e H e restabelece a forma original da proposta efectuada por F. Isto apesar de não apreciar muito F, que mais do que os restantes, escreve excepcionalmente mal. Finalmente, A prepara pessoalmente a resposta ao documento, a mesma resposta que provavelmente teria sido dada se não existissem os funcionários C, D, E, F, G e H.

Assim, mais pessoas ocuparam mais tempo a produzir um mesmo resultado, apesar de nenhum deles ter ficado parado e todos terem feito o melhor que podiam.

Pelo que,

– O trabalho aumenta a fim de preencher o tempo disponível para a sua conclusão ( a prova disso é que o homem mais “atarefado” é o homem que dispõe de mais horas vagas) ;

– O trabalho, especialmente o trabalho burocrático, é elástico na sua exigência de tempo, é claro que haverá pequena ou nenhuma relação entre o trabalho a ser efectuado e a quantidade de pessoas a executá-lo;

– As “coisas a serem feitas” aumentam de importância e complexidade em proporção ao tempo a ser gasto.

 Assim estamos e assim continuamos, na administração pública claro.

Yours truly,

parkinson

Prof. C. Northcote Parkinson

fb/2011/agosto/25

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