II. Uma manhã, fora de uma loja, num shopping

Percebo, agora que o escrevo, o que de facto me motivou a regressar. Irrita-me, por estes dias mais do que nunca, a indefinição. Gosto muito do preto e do branco. Adoro a categoria, as categorias, os catálogos e os catalogados.

Detesto o cinzento. Não o tolero.

Foi portanto com satisfação que a vi a sair da loja dirigindo-se às escadas do shopping. Estes segundos de perseguição fizeram aumentar ainda mais a minha repudia. Toda a minha posterior observação justifica-a em absoluto.

Sou um cavalheiro pelo que lhe pedi educadamente que se voltasse. Bem, não foi bem assim. Chamei-a, ela voltou-se.

Não gosto de prolongar muito as coisas, faço o que posso para abreviar. Aprecio a eficiência e a eficácia.

À falta de melhor, enfiei-lhe uma patada no peito. Como seria de prever uma queda de meio lanço de escadas, ainda que de costas, não faz grande mossa. Foi quando, do alto daqueles 8 degraus lhe saltei para cima. Aquela fotografia da amiga de Alice, de esfregona empapada em riste a limpar o chão ensanguentado da cozinha do restaurante onde ela acabara de ser assassinada assaltou-me o espírito. Agora sim, aquela imagem faz sentido. Nunca temos a real percepção das coisas enquanto não lhes sentimos o cheiro.

No mundo das certezas, abandono a ilusão que tinha sobre a rigidez do crânio. Um crânio não resiste afinal, tanto quanto pensava. Mas talvez fosse da idade. Ela já não era nova.

fb/2009

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