um post vaidoso

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Quanto mais clássicos leio, mais reforçada fica a ideia de que deveria
antes dedicar-me às dimensões da eternidade da literatura e da filosofia. A
política e a economia do aqui e agora da espuma dos dias sabem a muito
pouco. O mediatismo reveste uma realidade que é intelectualmente muito
pouco estimulante e demasiado pobre, chegando o decadente lodo da nossa
televisiva e jornaleira infeliz existência a ser esmagadoramente
claustrofóbico. O que não significa que, paradoxalmente, eu não vá vivendo
neste lodo e, dentro do meu parco raio de acção, agindo e reagindo aos
outputs do mesmo. O que, por seu lado, também não significa que esteja
disposto a entrar em todo e qualquer debate com toda e qualquer pessoa. As
pessoas atribuem demasiada importância a si próprias e às outras, bem como
às discussões que encetam. Eu repudio o relativismo intelectual, o
politicamente correcto e o dogma da igualdade. Tenho na tolerância uma
ideia base do meu pensamento, mas isso não quer dizer que tenha que aceitar
sem criticar todas as opiniões, aparências ou acções. Pelo contrário,
critico muitas e não as respeito a todas. Ao contrário do que fazia até há
poucos meses, deixei de perder tempo em debates espúrios, apenas entrando
nos debates que quero e com aqueles que considero intelectualmente dignos
de respeito e admiração.

As coisas são o que são, e todos nós fazemos juízos de valor uns dos
outros. Todos somos passíveis de ser alvos da crítica ou admiração de
terceiros, e certo é que “O número dos que nos invejam confirma as nossas
capacidades” (Wilde). Contudo, alguns levam-no ao extremo e passam da mera
constatação de facto ou de valor, possuindo até um pendor evangelizador,
normalmente perpassado por uma atitude alegadamente moralista de quem
egoisticamente quer corrigir os outros e fazê-los viver como vive, não
passando, portanto, de um hipócrita, porquanto, como escreveu Wilde, “A
moralidade é apenas a atitude que adoptamos para com as pessoas de que
pessoalmente não gostamos”. Pode ser pessoalmente ou apenas
intelectualmente, não se coibindo muitos indivíduos de tentar entrar em
debate com outros ou criticá-los em termos meramente mesquinhos, quando não
mesmo ignorantes e até absolutamente estúpidos. Como o mesmo autor
salientou, “Não há outro pecado além da estupidez”, e eu tenho cada vez
menos paciência para lidar com esta. O meu caminho paradoxal para a verdade
sou eu que o faço, pelo que dispenso as advertências inusitadas criticando
a minha alegada incoerência – posto que “A coerência é a virtude dos
imbecis” (Wilde), e talvez por isso seja muito apreciada em política, não
tanto pelos seus actores maiores mas mais pelos seus públicos de onde
recolhem as respectivas votações – assim como os conselhos vindos de quem
muito provavelmente precisa mais deles do que a minha pessoa.

Nesta peça trágico-cómica que é o nosso país – e o mundo –, cujo “elenco é
um horror” (Wilde), em que, como dizia alguém, a inveja é o desporto
nacional, é perfeitamente repulsiva a exasperante realidade que nos tolhe a
mente, pelo que cada vez mais me dou conta, como Wilde, “de que tudo o que
é magnífico se prende com o indivíduo, e que não é o momento que faz o
homem, mas o homem que cria o seu tempo”. Nesta época em que a ciência é
talvez o maior dos avanços da humanidade, tudo o que ainda vale a pena
descobrir está contido em nós próprios. Desde a minha imberbe adolescência
que me recordo de ser adjectivado de arrogante, vaidoso e pouco modesto, em
especial por professores. Nos últimos anos, o leque alargou-se a alguns
amigos e muitos conhecidos e desconhecidos. Se há uns 7 ou 8 anos isto me
fazia sentir mal e me deixava a pensar, o erro de todos eles é pensarem que
a pessoa que sou hoje se importa com isso, quando essa é uma característica
distintiva do meu carácter que assumi plenamente. Como escreveu Wilde, “A
vaidade é uma das principais virtudes, e, no entanto, poucas pessoas
admitem que a procuram e a tomam como objectivo. É na vaidade que muitos
homens ou mulheres encontraram a salvação, mas, apesar disso, a maioria das
pessoas arrasta-se a quatro patas em demanda da modéstia”. As pessoas
perdem demasiado tempo a tentar corrigir os outros, sem que sequer sejam
capazes de reflectir sobre os seus próprios defeitos. Se eu nem para a
minha pessoa sou moralmente correcto, como posso querer corrigir moralmente
os outros? Isto não implica, contudo, que não os critique. E por isso
subscrevo aquela frase de Gore Vidal que o João Gonçalves salientou aqui há
tempos: «-Van Vooren: É sensível às críticas? -Vidal: Não. Decidi cedo que
aquilo que penso dos outros é mais importante do que aquilo que eles pensam
sobre mim. Qualquer jogo tem de ter um árbitro e, então, decidi que eu seria o árbitro.

Por Samuel de Paiva Pires no Estado Sentido

http://estadosentido.blogs.sapo.pt/1692145.html

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