O meu vizinho

Sempre que o cumprimentava não obtinha qualquer resposta. A única vez que o consegui e ainda assim não passou de um simples grunhido, foi quando dentro do elevador quase lhe berrei na fuça um “boa tarde” ! Decidi então ignorá-lo. Não havia outra forma.

No entanto nos últimos tempos a situação tinha-se agudizado. Para mim. Ele tinha adquirido um lugar de garagem ao lado do meu e passamos a encontra-nos mais frequentemente. Ignorei-o por diversas vezes, da mesma forma que por diversas vezes o voltei a cumprimentar, na esperança de que algo no seu comportamento se tivesse alterado.  Mas não. Nada.

Era um anti-social. Uma besta.

Nas últimas horas da década passada cheguei a casa carregado e decidi carregar-me ainda mais com 3 garrafas de espumante que recolhi da minha garrafeira. Ele acabava de estacionar  e adiantou-se breves segundos em direcção aos elevadores. Eu segui-lhe os passos,  garrafas numa mão, sobretudo e trólei na outra. Lancei um “boa tarde” mas só obtive o eco como resposta. Nada de novo portanto. Acelerei o passo para o apanhar na expectativa, legítima, que ele me segurasse na porta que dá acesso aos elevadores.  Não estava à espera que o não fizesse. Ainda me surpreendo com muita coisa, ou talvez não.  A porta bateu em cheio nas garrafas que levava na mão, que adiantei para a tentar segurar.  Podia ter adiantado um pé. Podia.

Uma das garrafas partiu-se. Evidentemente.

O resto já se sabe. As garrafas de espumante têm uma tendência a partir ora pelo gargalo ora pela base. Dá sempre mais jeito que partam pela base.  Tive sorte.

Não me preocupei muito com a chafurdice. Nem é normal em mim uma vez que detesto sujidade. Principalmente nas mãos. Mas o elevador é revestido a plástico, nas paredes e no chão. É fácil de limpar. E assim, dei largas à imaginação.

Este ataque, claro, foi durante muito tempo amplamente discutido e comentado entre condóminos.  Na minha estranhada passividade, anuía espaçadamente aos comentários sobre a pacatez e reserva do morto. Afinal ninguém o conhecia verdadeiramente. Foi quando, no  orgasmo da especulação, o porteiro me soltou que “ele era surdo, nem deve ter percebido o que lhe aconteceu”.

Ora, como é que eu podia adivinhar ?

fb/2010/janeiro/25

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