Leite frio II

Não percebi o que tinha eu a ver com aquilo. Mal ela olhou para mim, desatou a correr para a cozinha. Servi-me e voltei para a piscina. Não me pareceu crível que ela estivesse precisamente ali. Tenho, felizmente, uma capacidade divina para me encontrar no local certo à hora certa, ou ao contrário, na perspectiva dos encarados.

E despistado como afinal sou, tinha-me esquecido de um leitinho. Voltei.

Ela ficou petrificada, estática, militarmente irrepreensível. Como não? Eu tampouco me posso afirmar sereno, perplexo seria a descrição mais fiel. Nunca imaginei que um copo pudesse fazer tantos estragos. Observei-os, tantos.

– Desculpe disse, querendo retirar-se.

Instintivamente a agarrei, não a poderia deixar ir, não depois de a ver. Daquela forma, naquela forma. Pedi-lhe simpaticamente para se encontrar comigo mais tarde, na praia, gostaria de falar com ela.

Não sei como vivia em tamanha sujeição, as cicatrizes nos negros marcam mais do que todas as outras, mais ainda na cara. Não haveria maior crueldade do que mantê-la exposta diariamente, aos olhares curiosamente macabros dos nossos irmãos de espécie. Era imerecido.

Ela era miserável, apenas por cobardia instintiva sobrevivia. Sei-o, pela forma quase romântica como se me entregou e inertemente recebeu todas as pancadas. Sei-o porque o vi no seu olho que restava vivo. E no alívio do seu último suspiro.

fb/2010/Junho/1

Leite frio, 1ª parte: https://arrecadacao.wordpress.com/2011/08/03/leite-frio/

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