A psicologia do poder (ou: machine-alfa não há só no rock)

Gene Simmons, o icónico baixista dessa já lendária máquina de merchandising que são os Kiss, revelou há tempos numa entrevista retrospectiva da carreira do grupo que conseguia hoje, com a relativa imparcialidade que o tempo e a idade sempre concedem, reconhecer o quão excessivo foi o seu comportamento no período de maior sucesso da banda. Não se pense no entanto que o faz de forma contrita: assumindo os referidos excessos, o músico não deixa de ressalvar que não poderia ter-se comportado de outra forma no contexto desses dias – é que, diz, quando se entra em palco regularmente ao som histérico de massas para quem um mínimo gesto nosso é motivo de quase adoração, tendemos efectivamente a acreditar que somos escolhidos para viver uma vida que não se rege pelos mesmos princípios que regulam as demais.

Ora, o que poderia com legitimidade ser lido como uma desculpa esfarrapada para as indulgências a que o senhor Simmons se entregou no passado acaba recentemente de receber o insuspeito aval da ciência. Um estudo psicológico recente levado a cabo por 2 académicos das universidades de Tillburg (Holanda) e da Northwestern University do Illinois (EUA) concluiu que pessoas exercendo funções de poder que se sentem merecedoras desse mesmo poder que lhes é atribuído tendem a julgar de forma diferenciada um mesmo acto, consoante ele seja praticado por si ou por outra pessoa. Como possivelmente já adivinham, o enviesamento vai no sentido de uma maior indulgência no julgamento moral de actos cometidos pelo próprio ou, alternativamente, maior severidade na avaliação do mesmo acto se cometido por outrem. O motivo desta discrepância hipócrita – possivelmente involuntária – é talvez o que mais interessa reter do achado: aparentemente, estas pessoas acreditam intimamente que a bitola ética que se impõe à maioria não lhes é aplicável na mesma medida, porque, resumidamente e sem “rodriguinhos”… são quem são!

Posto isto, um pequeno desafio: além das estrelas do rock, conseguem pensar em outra classe sócio-profissional a quem é atribuído algum poder (poder esse aliás activamente procurado pelos seus membros), envolvida frequentemente em pequenos/grandes escândalos que indiciam uma certa complacência na interpretação dos limites éticos das suas atribuições e que ainda assim mantêm publicamente uma postura de quase candura, como se efectivamente acreditassem que é extremamente injusto serem eles avaliados pelas mesmas regras que, no fundo, a seu ver, existem apenas para evitar que nós aqui por baixo resvalemos para a barbárie?

Vá lá, não vou dar mais dicas…

Francisco Silva

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