Leite frio

Os outros não sei mas os meus filhotes gostam de leite quentinho com chocolate. Gostam muito.

Era por isso já o sexto dia que repetia aquele exercício no resort. Pegava em dois copos, embrulhava-os em diversos guardanapos e retirava o leite da máquina. Tudo isto sob o olhar simpático e imperturbável da empregada que amavelmente mos fornecia. Várias vezes queimei as mãos, os lábios e a língua. O leite saía da máquina a ferver. Sempre. Eu tinha que o preparar, quentinho qb mas nunca a queimar. Invariavelmente pedia a esta simpática empregada, invariavelmente ao lado da maquina, invariavelmente a sorrir, umas canecas grandes para que o leite arrefecesse mais rápido. Ela lá mas dava. Eu passava o leite dos copos para as chávenas, mexia e esperava. Esperávamos. Os dois. Esperávamos sempre alguns minutos, eu olhava para o leite, mexia e soprava. Ela mantinha-se impávida e serena, de riso aberto, ao meu lado, à espera. E eu lá passava o leite novamente para os copos. Impávida. Canecas outra vez. Serena. E copos. Sorria.

Nesse dia, retirado o leite da máquina, lembrei-me de lhe perguntar o óbvio:

– Porque é que não têm leite frio?

– Nós temos leite frio senhor.

– Têm ?!

– Sim, mas está na cozinha.

– Nesta cozinha aqui ao lado?

– Sim, senhor.

Aguardei, imóvel, esperando que ela mostrasse intenção ou disponibilidade para o fazer. Fazer o lógico. Ela olhava para mim, de sorriso aberto, sempre de sorriso aberto, eu olhava para ela, franzindo o sobrolho, sinalizando estupefacção e esperança.

E nada.

15 segundos é muito, em tempo mental digo. Principalmente para quem tem a mente descansada por alguns dias de férias. Passam-nos tantas e tantas coisas pela cabeça em 15 segundos. Tentem.

Ela continuava a rir-se para mim. Tinha um sorriso muito lindo, doce até. Mas embora simpática, permanecia imóvel. Subitamente reganhei o peso dos copos. Por esta altura até já me estariam a queimar as mãos, outra vez. Mas já me havia abstraído com outras coisas.

Espetei-lhe com um dos copos no focinho. Só lá caberia um e nunca fui bom a acertar as esquerdas. Foi por isso quase instintivamente eleito, o direito, o directo. Não sei se gritou mais pelo leite a ferver se pelas lascas de vidro que lhe ficaram espetadas. Acho que ela também não. Dor é dor.

Nesse dia os miúdos tiveram que beber sumo de laranja. É mais saudável para todos, disse-lhes.

fb/2009/dezembro/03

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