Elevador

Já sei que é uma quase treta, isto da gripA. Mas às vezes dou por mim a pensar que se não fosse estaríamos todos bem lixados. Sim porque isto de cumprir regras cívicas em que entra a higiene, principalmente a higiene, não é para o comum dos tugas. Foi precisamente com este pensamento na cabeça que entrei no elevador com uma senhora vizinha da senhora minha mãe. Mal carrego no botãozinho a senhora vizinha da senhora minha mãe (que até é professora e como tal deve ter bem presentes as regras de não-contaminação) solta um valente e convicto espirro, de pulmão aberto. As mãozinhas claro, nem se mexeram. Acomodadas, uma na alça da carteira e a outra, a coçar qualquer coisa lá atrás. Como pessoa preocupada que sou com estas questões de saúde, principalmente com a dos outros, sustive de imediato a respiração para não ser contagiado pela chuva de hipotéticos e combativos bichinhos. Ocorre que a senhora minha mãe vive num prédio muito alto e a vizinha da senhora minha mãe atacou-me logo no primeiro meio-piso. Assim, só e apenas porque não estava mentalmente preparado, chegado ao quinto andar comecei a ficar um bocadinho roxo. No sexto estava mesmo roxo e no sétimo tive que abrir a goela de vez (nota mental: afinal o elevador não é tão rápido como parecia; nota mental 2: bravo Adrian Mole por esta fantástica criação). E fi-lo com sofreguidão, confesso. A senhora vizinha da senhora minha mãe, que entretanto havia percebido um comportamento social um tanto estranho da minha parte, pois como fui atacado no primeiro meio piso tive apenas oportunidade de soltar um sonoro “Boa !” em vez de um habitual e completo “Boa tarde !”, perscrutou-me por momentos com aquele olhar fulminante de professora entretanto aturdida e confusa entre uma reacção ao inesperado elogio e à minha má educação e rapidamente me acudiu. A mão esquerda, a da alça, directamente no pescoço. A mão direita, a que coça, directamente na bochecha. Tive um flash daqueles que os ressuscitados dizem ter antes de mortos. Os últimos instantes vividos percorreram-me a mente e pensei “Foda-se, tanto esforço e agora vais ser contagiado directamente por via salivar”. Não sei se por excesso ou falta de sangue na cabeça, fiquei um pouco aturdido e reagi, ou melhor sobrereagi (deixemos a língua viva viver…) empurrando a senhora vizinha da senhora minha mãe violentamente contra a parede do elevador. No processo ainda tive oportunidade de vislumbrar, pelo espelho, um senhor bem apresentado, bonito e de bom porte a cascar violentamente numa indefesa senhora de meia idade, com falta de Revlon Color Silk nº 3 na raiz.

– Ela ia enfiar-me a língua toda pela goela, isso não pode ser !

Foi o que disse ao agente Simões quando me perguntou porque tinha a pobre senhora vizinha da senhora minha mãe uma chave de automóvel espetada na garganta.

Sei que não é muito estético, mas eu não tinha mais nada no bolso.

fb/2009/outubro/03

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