Não posso deixar passar o dia. Não é tanto pela vergonha que o mesmo encerra. É pela música.
Teria eu uns 11 anos e tal como todos nós estava criminosamente exposto a músicas parentais de gosto duvidoso, estilo discutível, de ritmos e letras declaradamente gay – ai se eles soubessem – ou alternativamente, lamechas. Sim, teria por aí essa idade quando ia para a varanda ouvir um disco que um meu vizinho, já um pouco mais velhito que eu, um teenager, acabara de comprar. Rufava as baterias militares imaginadas por David Evans, os tambores, sentida e pujantemente no ar, de olhos fechados. No entusiasmo alçava as pernas e saltava. Aparelhagem no máximo. Claro. Eu, da minha janelita da cozinha ouvia e apreciava maravilhado aquele espectáculo. Vezes e vezes repetidas. This song is not a rebel song…
Nunca fui particular apreciador de U2 mas se há álbum intemporal, que sobrevive ao pó e que continua a provocar arrepios é este. Não é fácil. Under a blood red sky. Acho que nesta idade já o posso declarar; este é concerteza o disco, o álbum da minha vida.
Todas as demais intensidades e paixões juvenis acabaram por se desvanecer. Curiosamente sobrerresta-lhes uma única memória, infantil e supostamente a mais inocente delas todas.
Trago esta imagem comigo. E este som.
Obrigado Pedro Guimarães.
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